É difícil e complexo analisar processos que corroem a solidariedade, as conexões, a empatia e tudo aquilo que entendemos como importante enquanto humanidade. Por isso, apenas pincelaremos alguns conceitos teóricos que podem nos ajudar a compreender o fenômeno da desumanização de maneira mais integrada: algumas peças de um quebra-cabeça para que o cenário faça mais sentido.
E talvez seja importante começar justamente pelo questionamento que norteia esta análise: o que acontece quando deixamos de reconhecer plenamente a humanidade do outro?
Desumanizar alguém não significa apenas não gostar dessa pessoa ou ter preconceito contra ela. A desumanização acontece quando determinadas pessoas ou grupos passam a ser percebidos como menos humanos ou menos dignos, como se lhes faltassem características que reconhecemos como próprias da humanidade. Em algumas situações, o outro é associado a animais, como se fosse bárbaro, primitivo ou irracional. Em outras, é tratado como uma coisa, uma máquina, um objeto sem sentimentos, individualidade ou autonomia.
Reconhecer alguém como humano também significa reconhecê-lo como alguém que sente, pensa, sofre, deseja, possui uma história, vínculos e interesses, e que deve poder participar das decisões que afetam sua própria vida. Quando essas dimensões são negadas, torna-se mais fácil ignorar o sofrimento do outro, justificar sua exclusão e, em situações extremas, aceitar que ele seja submetido à violência.
A desumanização, portanto, não começa necessariamente com a violência. Muitas vezes, começa muito antes: na maneira como passamos a representar determinadas pessoas.
Um trabalho importante para os estudos sobre preconceito é A Personalidade Autoritária, publicado em 1950 por Theodor Adorno e um grupo de psicólogos da Universidade de Berkeley. O trabalho procurava compreender o preconceito, o etnocentrismo e as condições psicológicas relacionadas ao autoritarismo e à receptividade a ideias fascistas.
Adorno foi um filósofo e sociólogo alemão perseguido pelo nazismo. A experiência do nazismo e do fascismo colocava uma questão difícil: como uma sociedade pode chegar a aceitar, apoiar ou participar de processos de perseguição e violência contra determinados grupos?
A Personalidade Autoritária procurou investigar uma parte dessa questão, buscando identificar disposições psicológicas relacionadas ao preconceito, ao etnocentrismo e ao autoritarismo. Entre os elementos identificados pelos pesquisadores estavam a submissão à autoridade, a adesão rígida a valores convencionais, a agressividade contra aqueles percebidos como transgressores e a tendência a organizar o mundo em categorias rígidas de fortes e fracos, superiores e inferiores.
Em grupos, uma das manifestações da tendência autoritária é a crença de que o grupo é superior a outros em algum aspecto, considerando diferenças e questionamentos como ameaças ou até ofensas à própria identidade. Dessa forma, a violência com quem está de fora passa a parecer legítima defesa.
Essas características não significam que uma personalidade autoritária determine automaticamente que alguém cometerá violência, mas sim que determinadas disposições individuais podem encontrar condições sociais nas quais ganham força e expressão. Historicamente, em períodos de crise social, essa tendência à hostilidade costuma ganhar formas mais organizadas e concretas.
Isso nos ajuda a compreender por que a violência política não pode ser explicada simplesmente imaginando que ela é praticada por pessoas “loucas”, psicopatas ou completamente diferentes das demais. O nazismo não pode ser compreendido pela existência de uma sociedade formada apenas por indivíduos patologicamente violentos. Havia pessoas comuns ocupando diferentes posições dentro daquele sistema, com diferentes graus de adesão e participação.
Em vez de perguntar apenas “que tipo de pessoa é capaz de fazer isso?”, precisamos perguntar também: “que tipo de contexto torna determinadas formas de violência possíveis, aceitáveis ou até mesmo desejáveis?”
O que emerge é resultado de uma interação: disposições individuais encontram circunstâncias históricas, relações grupais, discursos, instituições e relações de poder. É nesse ponto que precisamos olhar para os grupos.
Sobre a relação entre indivíduo e grupo, Freud produziu, em 1921, o livro Psicologia de Massas e Análise do Eu. Ao discutir o comportamento de massa, Freud procura compreender o que acontece com o indivíduo quando ele passa a fazer parte de um grupo.
Nessa obra, alguns comportamentos coletivos são observados: a responsabilidade individual é diluída dentro do grupo; a massa se prende a estereotipias e verdades prontas, o que leva à intolerância ao diferente; fechar-se passa a ser uma virtude: “não me fale, não me mostre”; demonstra-se hostilidade contra quem é visto como “de fora.
A ideia importante para nós é que o indivíduo não existe psicologicamente isolado de seu meio. A presença do grupo pode alterar aquilo que ele percebe como aceitável, fazendo com que crenças que antes pareciam inadequadas adquiram legitimidade quando são repetidas, compartilhadas e reforçadas coletivamente. O grupo não apenas reúne pessoas que já pensam da mesma maneira; ele também produz normas sobre aquilo que pode ser pensado, sentido e considerado aceitável.
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Francielli Anjos é psicóloga clínica e social. Escreve sobre psicologia, relações humanas, sociedade e subjetividade.


















