Desumanização: quando o rótulo apaga a pessoa - Parte 2

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A construção do “nós” e “eles”

A construção de um grupo frequentemente envolve também a construção de um “fora”: nós, os de dentro, e eles, os de fora. Essa diferença pode ser acompanhada por percepções de ameaça, competição por recursos ou conflitos de interesses. A partir daí, podem surgir estereótipos, preconceitos e práticas discriminatórias.

O outro deixa de ser percebido simplesmente como uma pessoa diferente e passa a representar uma categoria inteira: eles. Quando uma pessoa deixa de ser percebida em sua singularidade e passa a ser reduzida à categoria à qual foi atribuída, abre-se espaço para a desumanização. Ela já não é mais Maria, João, Ana ou Carlos. Ela é “o imigrante”, “o pobre”, “o criminoso”, “o inimigo”, “o degenerado”, “o vagabundo”, “o invasor”, “o diferente”. A categoria passa a ocupar o lugar da pessoa.

É importante perceber que a desumanização não precisa aparecer em uma linguagem explicitamente violenta. Ela pode estar presente em piadas, estereótipos, generalizações e discursos que reduzem pessoas complexas a uma única característica. Também pode aparecer na indiferença diante do sofrimento ou na incapacidade de reconhecer a complexidade do outro.

Quando deixamos de considerar que o outro possui uma vida interior tão complexa quanto a nossa, seu sofrimento pode passar a parecer menos relevante.

Desumanizar pode ser um projeto de poder

Preconceitos e discursos estigmatizantes não surgem do nada. São resultado de múltiplos processos sociais e culturais e, em determinados contextos, podem também ser mobilizados de forma intencional para consolidar relações de dominação. Imigrantes podem ser apresentados como responsáveis por uma crise, uma religião pode ser transformada em ameaça, um grupo político pode ser convertido em alvo de medo e ressentimento.

A propaganda pode recorrer à generalização, à repetição, à simplificação e ao clichê, oferecendo respostas fáceis para problemas complexos e reduzindo o espaço para a dúvida e a reflexão. Problemas complexos são apresentados com soluções simples.

Por isso, não basta perguntar apenas por que uma pessoa acredita em determinado discurso. Também precisamos observar quem produz esse discurso, em que contexto ele circula, quais interesses mobiliza e que representação do outro ele constrói.

Da palavra ao ato

Quando uma representação se torna dominante, ela pode deixar de parecer uma interpretação da realidade e passar a ser tratada como a própria realidade. É assim que discursos podem transformar uma população em ameaça, uma diferença em problema, uma identidade em perigo e uma pessoa em categoria.

Em situações extremas, essa lógica pode contribuir para que a violência deixe de ser percebida como violência contra pessoas e passe a ser apresentada como solução para um problema.

Por isso, compreender o discurso desumanizador exige olhar para diferentes níveis ao mesmo tempo: para as disposições individuais, para os grupos, para os processos de identificação, para os preconceitos, para as instituições, para os discursos e para as relações de poder.

Como reconhecer um processo de desumanização? 

Desumanizar não é a mesma coisa que discordar ou antipatizar. É um processo que pode ser reconhecido a partir de algumas perguntas:

A pessoa está sendo reduzida a uma categoria, número ou objeto?
Sua identidade ou existência está sendo apresentada como ameaça?
Está sendo estabelecida uma hierarquia entre vidas que merecem mais ou menos consideração?
Decisões sobre sua vida estão sendo tomadas sem que ela possa ser ouvida ou participar delas?

A desumanização pode aparecer em diferentes graus e assumir diferentes formas. Pode estar presente quando alguém é representado como animal, quando é tratado como máquina, quando sua capacidade de pensar e sentir é negada, quando sua individualidade desaparece atrás de um estereótipo ou quando sua vida passa a valer menos porque pertence a determinado grupo.

Ela não começa necessariamente eliminando a vida de alguém. Pode começar retirando, pouco a pouco, o reconhecimento de que aquela vida importa.

Resgatar a humanidade

Por isso, enfrentar a desumanização também exige recuperar a pessoa que desapareceu atrás da categoria: sua história, sua singularidade, seus vínculos, seus desejos, sua capacidade de sentir, pensar e participar do mundo.

Antes de ser membro de um grupo, adversário, eleitor, trabalhador, imigrante, religioso, pobre, rico, homem, mulher ou qualquer outra categoria que possamos utilizar para classificá-lo, existe uma pessoa.

Diante de processos de desumanização, é necessário recuperar aquilo que esses discursos tentam apagar: o interesse pelo outro, a investigação crítica, a disposição para conhecê-lo e a capacidade de reconhecer sua humanidade.



Francielli Anjos
é psicóloga clínica e social. Escreve sobre psicologia, relações humanas, sociedade e subjetividade.

Desumanização em Imagens