Fascismo é um fenômeno político com múltiplas facetas, estudado por diferentes áreas do conhecimento. Este texto não pretende percorrer o lastro histórico do fascismo, mas analisá-lo pelo prisma psicológico, explorando aspectos psíquicos que se expressam na vida social de diversas formas e que, em certos momentos históricos, se traduzem em adesão a projetos fascistas.
Parte-se aqui do pressuposto de que já sabemos algo sobre o que foi o fascismo no século XX, que reconhecemos algumas das ideologias associadas a ele e que somos capazes de identificar, ao menos minimamente, comportamentos fascistas. As palavras-chave que orientam esta reflexão são: preconceito, discriminação, personalidade, fascismo, democracia, autoritarismo e ideologia.
“O ovo da serpente” se tornou uma expressão comum para descrever a ascensão fascista em sociedades democráticas. Na peça “Júlio Cesar”, de Shakespeare, Brutus analisa a ameaça da ascensão de Júlio Cesar ao poder: “um ovo de serpente que, eclodindo, como a sua espécie, cresceria malevolamente, pelo que o urge matar na casca.” A imagem é sugestiva: o fascismo como um ovo desovado no interior da própria democracia, prestes a eclodir.
Há também uma segunda história, contada por Franco Basaglia, que usa a serpente como metáfora política:
Uma fábula oriental conta a história de um homem em cuja boca, enquanto ele dormia, entrou uma serpente. A serpente chegou ao seu estômago, onde se alojou e de onde passou a impor ao homem a sua vontade, privando-o assim da liberdade. O homem estava à mercê da serpente: já não se pertencia. Até que uma manhã o homem sente que a serpente havia partido e que era livre de novo. Então dá-se conta de que não sabe o que fazer da sua liberdade. […] havia perdido a capacidade de desejar, de tender para qualquer coisa e de agir autonomamente.
A Instituição Negada: Relato de um Hospital Psiquiátrico
É essa segunda imagem que melhor representa o fascismo que se quer apresentar aqui. Enquanto observamos os ovos, perguntando-nos se deles sairá uma serpente, ela já pode ter se alojado dentro de nós. Já podemos ter rendido nossa autonomia a ela.
O autoritarismo se fundamenta no cerceamento das autonomias: determina o que é moral, quais ideias são “corretas”, que formas de vida são permitidas e quem são os dignos de pertencimento ao grupo. A submissão acrítica e obediente torna-se, assim, a virtude mais valorizada.
A Personalidade Autoritária é um trabalho publicado em 1950 nos Estados Unidos, fruto de uma pesquisa de grande escala conduzida por Theodor Adorno e uma equipe de psicólogos da Universidade da Califórnia, campus de Berkeley. No Brasil, foi publicado sob o título Estudos sobre Personalidade Autoritária. Trata-se de uma teoria densa, extensa e complexa, que este texto explora apenas na superfície, o suficiente, ainda assim, para oferecer bastante material de reflexão.
A obra integra uma série mais ampla, os Estudos sobre o Preconceito, e se debruça principalmente sobre preconceito e discriminação. Adorno, pesquisador-chefe do projeto, era um intelectual alemão que fugiu do nazismo e se refugiou nos Estados Unidos junto a vários colegas do Instituto de Pesquisa Social, originalmente sediado em Frankfurt, grupo que ficaria conhecido como Escola de Frankfurt.
Um desses colegas, Max Horkheimer, observou que o antissemitismo social nos Estados Unidos das décadas de 1930 e 1940 era, em certos aspectos, mais presente do que na Europa. A respeito disso, escreveu: “Se uma minoria antissemita alemã tinha sabido levar em poucos anos seu antissemitismo declarado até o genocídio industrializado, não se deveria esperar um fenômeno análogo nos EUA?”
Essa pergunta ajudou a motivar a pesquisa da equipe de Berkeley. Inicialmente, o objeto de estudo era o antissemitismo; conforme o trabalho avançava, ampliou-se para o preconceito em geral, pois se percebeu que um preconceito está ligado a outro, e que a questão, portanto, não era apenas o antissemitismo, mas o etnocentrismo como um todo.
Com a ajuda de estudantes de psicologia, foram aplicados dois mil questionários e realizadas mil entrevistas. Os participantes não sabiam exatamente do que se tratava a pesquisa; era-lhes dito, de forma vaga, que o assunto envolvia “questões gerais”. As perguntas foram organizadas em quatro escalas temáticas: antissemitismo, etnocentrismo, conservadorismo político-econômico e fascismo. Quanto mais preconceituosas as respostas, maior a pontuação obtida; daí os termos “maiores pontuadores” e “menores pontuadores”, usados para designar, respectivamente, os mais e os menos preconceituosos.
A partir dessa primeira etapa, os pesquisadores selecionaram os extremos, maiores e menores pontuadores, para uma investigação mais profunda: questões dissertativas por escrito, entrevistas clínicas sobre histórico familiar, infância, questões sexuais, relações sociais, crenças políticas e opiniões, além de testes psicológicos projetivos.
Vale ressaltar que a pesquisa aborda questões que vão muito além do que é possível tratar neste recorte. As descrições que seguem ajudam a compreender outras pessoas, mas também podem se tornar ferramentas de julgamento se mal empregadas. A intenção é que sirvam antes como convite à reflexão sobre nós mesmos e, com isso, nos tornemos mais compreensivos e empáticos em relação aos outros.
Trechos da Introdução de “A Personalidade Autoritária”
A temática central do trabalho é um conceito relativamente novo – o surgimento de uma espécie “antropológica”, que podemos chamar de homem autoritário. Em contraste com o fanático de velho estilo, esse último parece combinar as idéias e habilidades típicas da sociedade altamente industrializada com crenças irracionais ou anti-racionais. Ele é ao mesmo tempo esclarecido e supersticioso, orgulhoso de ser um individualista e sempre temeroso de não ser igual aos outros, ciumento de sua independência e inclinado a se submeter cegamente ao poder e à autoridade.
[…]
A questão que pode ser levantada é sobre qual é o grau de relacionamento entre a ideologia e a ação. Se um indivíduo está fazendo propaganda antidemocrática ou se engajando em ataques abertos contra os membros de uma minoria, é geralmente assumido que suas opiniões, atitudes e valores são congruentes com sua ação; mas às vezes se encontra conforto na idéia de que, embora verbalmente o indivíduo expresse idéias antidemocráticas, ele não as põe, nem vai pô-la, em ação. Aqui de novo existe a questão das potencialidades. A ação aberta tanto quanto uma expressão verbal do mesmo tipo depende em grande parte da situação existente.
[…]
Parece haver pouca razão para duvidar que a prontidão ideológica (receptividade ideológica) e a ideologia em palavras e ação são essencialmente a mesma coisa. A descrição da ideologia global de um indivíduo precisa retratar não apenas a organização de cada nível mas a organização entre os níveis ideológicos [de sua personalidade]. O que o indivíduo diz em público com consistência; o que ele diz quando se sente à salvo de crítica; o que ele pensa mas não dirá de modo algum; o que ele pensa mas não admitirá sequer para si mesmo; o que ele está disposto a pensar ou fazer quando vários tipos de apelo forem feitos a ele – todos esses fenômenos podem ser concebidos como constituindo uma só estrutura.
[…]
Entretanto comportamento, ainda que consistente, não é a mesma coisa que personalidade; personalidade é o que repousa atrás do comportamento e dentro do indivíduo. As forças da personalidade não são respostas mas prontidão para resposta; se essa prontidão vai ou não resultar em expressão aberta, depende não apenas da situação do momento mas também de qual outra prontidão se encontra em oposição a ela.
A partir dos resultados, os pesquisadores descreveram a “síndrome autoritária”, com 9 características ou sintomas principais:
Convencionalismo: Adesão aos valores das classes sociais dominantes e defesa do status quo.
Submissão autoritária: Identificação com um grupo considerado “forte” e submissão acrítica às autoridades morais vistas como líderes.
Agressão Autoritária: Contra pessoas que violam os valores convencionais ou vistas como mais fracas na sociedade.
Anti-Intracepção: Oposição à subjetividade e à imaginação. Desprezo ao intelectual.
Superstição e Estereotipia: Crença no destino individual; pensando em categorias rígidas.
Poder e Resistência: Preocupado com submissão e dominação; afirmação de força. Enxerga a sociedade como grupos de fortes e fracos.
Destrutividade e cinismo: hostilidade contra a natureza humana.
Projetividade: Percepção do mundo como perigoso; tendência a projetar impulsos inconscientes. Enxerga no outro aquilo que não aceita em si mesmo.
Sexo: Muito preocupado com as práticas sexuais modernas e em controlá-las.
Um achado interessante é que os indivíduos autoritários eram muito semelhantes entre si e pareciam menos autônomos, reagindo antes a determinações sociais do que agindo de forma própria. Já os democráticos eram muito mais diversos entre si, o que dificultou a identificação de padrões generalizáveis.
Algumas considerações sobre a síndrome autoritária merecem destaque. Os autores fundamentaram suas análises na teoria psicanalítica: cada descrição tem origem em fenômenos psicológicos complexos, articulados tanto na dimensão individual quanto na social. A pesquisa também parte de uma perspectiva dialética: os fenômenos são multifatoriais, e esses fatores não se somam simplesmente para compor um todo; eles se influenciam mutuamente.
Assim, o afeto político do indivíduo é constituído tanto por seu desenvolvimento pessoal e familiar quanto pela cultura, pela época e pela sociedade em que está inserido, incluindo fatores econômicos, já que, nessa perspectiva, os modos de produção e o mercado influenciam diretamente a subjetividade. Na lógica dialética, mudar um aspecto do fenômeno transforma o fenômeno inteiro.
A Personalidade Autoritária é uma referência tanto pela metodologia empregada quanto pelo tratamento dado ao tema do preconceito e do autoritarismo. Um aspecto que o trabalho não aborda, no entanto, são as soluções para o problema. Adorno chega a sugerir que o trabalho científico criterioso e extensivo pode transformar a sociedade, assim como o conhecimento transformou a cultura no passado, mas isso está longe de ser uma solução, e há um risco real em cair na simplificação de que “a educação resolve tudo”. Os problemas são complexos, e sempre resta a pergunta: de que tipo de educação estamos falando?
A expectativa é que esse conhecimento provoque reflexões sobre possíveis soluções e, sobretudo, nos torne mais capazes de compreender que, quando pessoas aplaudem discursos autoritários, o que está em jogo não é apenas a racionalidade. Para dialogar com essas pessoas, é preciso compreender como se estruturam suas crenças e suas necessidades psicológicas.
Aqui reside o aspecto mais importante da escolha do termo “personalidade”: a teoria pressupõe que a personalidade é dinâmica, e é justamente por isso que ela se movimenta entre as ideologias disponíveis. Com um trabalho bem conduzido, crenças estereotipadas podem amadurecer para uma posição mais reflexiva, consciente e autônoma.
Francielli Anjos é psicóloga clínica e social. Escreve sobre psicologia, relações humanas, sociedade e subjetividade.