Imagine a situação. Você se casa e, com o tempo, percebe que o seu parceiro te negligencia. Quando você está doente, ele faz pouco caso do seu sofrimento. Quando ele está doente, por menor que seja o adoecimento, exige atenção e cuidado. Aos poucos, isso vai se transformando em uma grande mágoa.
Para permanecer nessa relação, você talvez comece a se conformar. Conformar-se de que a forma como você se importa com os outros não é a forma como os outros se importam com você. De que o seu parceiro não se importa na mesma medida. De que ele é, simplesmente, egoísta. Essa conformação funciona como uma manutenção: é o preço de manter a relação de pé.
Com o tempo, a conformação vira generalização. Você conclui que o seu casamento é assim e que, se quiser continuar casada, vai ter que ser assim. E então conclui: casamentos são assim. A ordem natural das coisas seria que parceiros sejam egoístas uns com os outros.
Mas essa conclusão não reflete a realidade.
Primeiro: você não é egoísta. Você se importa, sente, percebe as situações e cuida das pessoas. Se, por amor próprio, para estabelecer limites e poupar sua energia, você passa a agir como se não se importasse, isso é defesa, não indiferença. Os sentimentos continuam aí dentro. E, sendo você uma pessoa que cuida, provavelmente seria diferente se estivesse casada com alguém como você.
Segundo: o seu casamento é um casamento, não todos os casamentos. Existem muitos casamentos, entre muitas pessoas, todas muito diferentes. Eles não são iguais.
Ainda assim, para preservar a vida como ela está (não chega a ser paz, porque paz não existe nesse contexto), você generaliza e aceita essa suposta ordem natural. Passa a normalizar que as pessoas sejam indiferentes e egoístas umas com as outras. E então começa a tratar os outros assim também, porque acredita que é normal e aceitável, e porque acredita que, se não for indiferente, vai se magoar de novo. Assim, você passa a reproduzir a violência que sofreu.
É assim que a mágoa vira ressentimento. Quando o sofrimento da mágoa não é acolhido nem elaborado, e não se transforma em uma mudança, ele azeda por dentro e se torna um ressentimento contra o mundo. Você passa a agir de modo egoísta não por ser egoísta, mas por estar magoada.
E a sua mágoa tem razão de ser. Ela tem uma história, e sentir-se magoada é uma resposta completamente compreensível e adequada. O problema não é sentir a mágoa, mas o que acontece quando ela fica sem lugar para ir.
O ressentimento é a base da violência porque faz as pessoas se relacionarem a partir de sentimentos negativos. Ele também se espalha: generaliza-se para pessoas e lugares que não foram a origem da dor. Quando estamos ressentidos, quando estamos com dor, tendemos a reproduzir a violência.
Por isso mágoa e ressentimento são tão ligados.
Francielli Anjos é psicóloga clínica e social. Escreve sobre psicologia, relações humanas, sociedade e subjetividade.