Eu Não Preciso Que Você se Pareça Comigo

Eu quero uma vida que valha a pena ser vivida. E quero que essa possibilidade exista também para outras pessoas. A vida que desejo para mim não depende de que os outros deixem de viver a que desejam.

Aprendemos, muitas vezes, a pensar a vida como competição: para alguém subir, outro precisa descer; para alguém ser grande, outro precisa ser diminuído. Eu acredito que é possível construir uma vida boa sem que a dos outros seja pior.

Isso não significa abrir mão de si em nome dos outros. Significa reconhecer que há desejos generosos e desejos opressores. Os primeiros se satisfazem com a própria realização. Os segundos só se satisfazem quando dominam, controlam ou diminuem aquilo que é diferente.

O condomínio

Imagine a vida em um condomínio. Posso desejar um lugar agradável, bonito e tranquilo, onde me sinta em casa. Mas há uma diferença entre querer viver bem no meu espaço e querer que o condomínio inteiro seja um retrato de mim. Se eu exijo que todas as portas tenham enfeites no Natal ou que todos os apartamentos sigam a decoração do meu gosto, já não estou desejando uma vida boa para mim. Estou exigindo que os outros vivam segundo as minhas preferências.

Existe outro caminho. Posso decorar minha casa com luzes de Natal, reservar nela espaço para o que amo e ser feliz ali dentro, sem precisar que meus vizinhos façam o mesmo. Posso até estranhar a decoração de alguém e perceber que temos gostos muito diferentes. Isso não precisa ameaçar a minha felicidade. Se eu posso viver bem no meu espaço e meus vizinhos podem viver bem nos deles, talvez isso seja suficiente.

O templo

O mesmo vale para a fé. Se eu for religiosa, quero ter um lugar de culto bonito, acolhedor e seguro, onde possa encontrar pessoas que compartilham minha crença e sentir que pertenço. E quero que, em outra esquina, haja um templo de outra religião, igualmente bonito, onde outras pessoas também se sintam pertencentes e acolhidas.

O único templo que não desejo que exista é aquele que não acolhe e discrimina.

Desejar que os outros também tenham um lugar de pertencimento é diferente de desejar que pertençam ao mesmo lugar que eu. Se, ao passar por outros templos, eu me irritasse por ver que aquelas pessoas não frequentam o meu, talvez o que eu quisesse já não fosse viver a minha fé. Talvez eu precisasse que ela prevalecesse sobre as demais para me sentir satisfeita.

Nesse caso, a existência do outro se tornaria um problema, mesmo sem me impedir de viver o que desejo. Meu espaço já não bastaria: eu precisaria que os outros deixassem de ocupar os deles.

Um critério

Esses exemplos sugerem uma pergunta que vale fazer a qualquer desejo meu: ele se realiza com a minha própria vida, ou só se realiza se a vida do outro for diminuída, controlada ou apagada?

Isso não quer dizer que toda escolha alheia deva ser aceita sem questionamento. Há escolhas que causam dano, e nesses casos o limite é legítimo. Mas estranhar um gosto diferente do meu é outra coisa. A diferença está entre o que me incomoda porque me fere e o que me incomoda apenas porque não se parece comigo.

Olhar para dentro

É aí que começo a questionar a natureza dos meus próprios desejos. O que chamo de busca pela felicidade às vezes está misturado a uma vontade de conquista, de poder, de domínio. Aprendemos que ser grande é ser maior do que alguém, que ter valor é se destacar dos demais e que conquistar um lugar exige tirar o de outra pessoa. Reconhecer quanto dessas ideias habita em nós é desconfortável, e por isso mesmo necessário.

Também não quero uma vida em que precise renunciar aos meus desejos para que os outros realizem os deles. Quero desejar, construir e desfrutar daquilo que faz sentido para mim, reconhecendo que os outros têm o mesmo direito, mesmo quando suas escolhas são muito diferentes das minhas.

O mundo que desejo

Talvez o mundo que eu queira seja aquele em que uma vida que vale a pena ser vivida seja uma possibilidade real para mais pessoas. Um mundo em que a minha felicidade não dependa de que os outros se pareçam comigo, concordem comigo ou deixem de existir como são.

Para isso, não basta respeitar os desejos alheios. Preciso também olhar para os meus e perguntar se, em algum momento, passei a desejar não apenas a realização da minha vida, mas um mundo em que só a minha maneira de viver pudesse prevalecer.

Quero uma vida boa para mim. E quero que outras pessoas também possam ter uma vida boa para elas. Não necessariamente a mesma, nem pelos mesmos motivos. Apenas uma vida que valha a pena ser vivida.



Francielli Anjos
é psicóloga clínica e social. Escreve sobre psicologia, relações humanas, sociedade e subjetividade.