A onda neoliberal que reorganizou o mundo do trabalho desde o fim do século XX não se sustentou apenas por meio de regras e metas. Ela também precisou convencer as pessoas. Gerentes, executivos, advogados, administradores, engenheiros e economistas, a chamada “nova classe média”, foram levados a acreditar que seu trabalho era criativo e expressivo, ainda que cumprissem jornadas de oito a quatorze horas em benefício de quem detém o capital. Nesse arranjo, a jornada extensa deixa de ser sinal de sobrecarga e passa a valer como sinônimo de entrega, uma premissa desejável para o sujeito de uma sociedade que se pretende meritocrática.
Esse convencimento é o que dá ao gerencialismo sua força. Ele opera como um imaginário social, um conjunto de códigos e padrões que regula a ação individual e coletiva e se manifesta em todos os aspectos da vida: nos modos de sobreviver, nas normas de comportamento, nas crenças e nas instituições. Ela enraíza a alta performance e a competição como modelo de eficiência e transforma a existência social em uma luta por lugares. O resultado é esgotamento profissional e estresse, além da banalização do sofrimento no trabalho, que passa a ser tratado como algo necessário e até belo. O valor da pessoa se define por sua utilidade. Assim, uma gestão que deveria ajudar a resolver problemas de desenvolvimento acaba reproduzindo, ao mesmo tempo, riqueza e pobreza, conhecimento e ignorância, bem-estar e sofrimento.
Nas redes sociais, essa ideologia encontra um canal eficiente. Frases motivacionais atribuídas a figuras de prestígio, sem autoria ou fonte, tratam a crítica e o convívio em grupo como obstáculos. Com isso, reforçam o conformismo, o individualismo e a busca intensa por desempenho imediato. Os super-heróis funcionam da mesma forma. Ao sugerir que o corpo pode ter limites, mas a mente não, e que uma mente cansada é sinal de fracasso, essas imagens legitimam padrões sobre-humanos que ignoram o cansaço, o estresse e a saúde mental. O mercado, por sua vez, exige esses padrões e não se interessa pela vida pessoal e social de quem trabalha.
Por trás desses discursos há uma engrenagem mais ampla. A exigência de mais comprometimento se apoia na transferência de riscos para o trabalhador e na naturalização do discurso neoliberal. A avaliação e a responsabilização funcionam como mecanismos de coerção, que levam o sujeito a cumprir o esperado com pouca contestação. Somadas às transformações políticas e econômicas, essas lógicas corroem os direitos do trabalho protegido e abrem espaço para formas de emprego precárias, provisórias e temporárias. Nesse contexto, a motivação deixa de ser apoio e se torna pressão psicológica por resultados, pois serve apenas para assediar, e não para gerar benefício coletivo.
O empreendedorismo aparece, então, como a promessa de saída. Os discursos do “espírito empreendedor” que vence obstáculos pela competição e pela comparação alimentam mitos de superação pessoal. Eles se apoiam em casos esporádicos e, com isso, atenuam os problemas da desigualdade social. Publicações que exibem grandes nomes do esporte ou dos negócios escondem os contextos sociais que também sustentam qualquer sucesso. Segundo Ehrenberg, o culto da performance circula em três registros: o esportivo, com sua ideia de competição justa em que vencem os melhores; o do consumo, que promete satisfazer necessidades; e o empresarial, que faz do empresário modelo de conduta e do empreendedorismo uma ação necessária para vencer.
Quando o esforço é apresentado como a única via para o êxito, o resultado é a romantização da busca incessante por desempenho, em prejuízo da saúde mental. Quem ganha com isso são os vendedores de conteúdo com fórmulas milagrosas. Suas mensagens criam desejos e passam a falsa impressão de que consumir aquele material basta para ter sucesso e de que qualquer posição social é alcançável, bastando querer. Recorrem a estratégias enganosas, como o “a psicologia diz” sem citar fonte ou cientista, e a promessas como a de que um único produto ensinaria “tudo” o que é preciso para ganhar dinheiro e transformar a vida. No fim, sugerem que o sujeito deve buscar a exaustão ou arriscar suas economias se não quiser abandonar o “sucesso” em seu sentido estereotipado.
Se o sucesso é atribuído ao indivíduo, o fracasso também é. Por isso, o sofrimento produzido por esse modelo costuma ser vivido como falha pessoal, quando na verdade tem causa estrutural e coletiva. E atinge com mais força quem já convive com a falta de amparo e de acesso, o que exige respostas que vão além do plano individual.
Francielli Anjos é psicóloga clínica e social. Escreve sobre psicologia, relações humanas, sociedade e subjetividade.