As novas gerações de profissionais precisam sobreviver e se desenvolver em um mundo que parece estar colapsando. A urgência climática e a exploração dos recursos naturais estão redesenhando a sociedade. Refugiados climáticos, desigualdade econômica, precarização do trabalho e avanço da inteligência artificial atravessam hoje o mundo profissional.
Muitos jovens já planejam a vida em função dessas crises: decidem não ter filhos, buscam as chamadas “profissões do futuro” (supostamente menos vulneráveis à automação) e tentam antecipar quais habilidades ainda terão valor nas próximas décadas.
Os discursos dominantes sobre o nosso tempo, sobretudo na mídia, são majoritariamente pessimistas. Não é difícil entender por que a ideia de futuro desperta tanta ansiedade. No campo da saúde mental, já se fala em “ecoansiedade” e “ansiedade climática”, sintomas de um sentimento mais profundo: a desesperança.
“É mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo.” A frase, atribuída a Mark Fisher, resume seu conceito de “realismo capitalista”: a ideia de que normalizamos de tal forma o modo de vida atual que perdemos a capacidade de imaginar alternativas a ele. O sistema passa a parecer natural, inevitável, e questioná-lo soa como ingenuidade, não como lucidez.
A contradição aparece quando projetamos o futuro esperado nesse sistema: um planeta esgotado.
Temos dificuldade de imaginar formas de vida mais sustentáveis, mas imaginamos com facilidade a colonização de outros planetas. Basta ver a ficção científica e os projetos bilionários de expansão espacial. Isso não é acaso: a nossa imaginação também foi colonizada. Incorporamos a ideia de que recursos naturais devem ser explorados para a acumulação de riqueza em favor de ricos e poderosos.
Nossa desesperança e pessimismo possuem raiz histórica, mas o capitalismo em si não é assim tão antigo. O modelo que hoje parece “natural” e “inevitável” é recente: o capitalismo industrial surgiu no século XVIII, e o neoliberalismo nem completou cem anos. Não é a única forma de organização social que já existiu, nem a única possível hoje.
Povos indígenas brasileiros existem e resistem até hoje. O que para nós surge como ameaça iminente de “fim do mundo” já foi vivido por povos originários há mais de 500 anos, com a colonização, a destruição de territórios e a violência que continua se atualizando. Essa é uma experiência que os povos originários carregam há séculos.
Em diferentes partes do planeta, comunidades ainda preservam relações distintas com o trabalho, a natureza e a coletividade. Defender a imaginação, então, não é inventar algo do zero: é reconhecer que outras formas de vida já existiram e continuam existindo. Por isso a imaginação precisa ser crítica, capaz de pensar organizações sociais que não sejam construídas sobre desigualdades.
O mundo em crise é um mundo específico: colonial, capitalista e antropocêntrico, que acredita em crescimento ilimitado, exploração da natureza e hierarquização das vidas. Reconhecer isso significa perceber que a crise dessa forma de vida não precisa representar o fim de toda possibilidade de existência.
Outro sintoma dessa subjetividade colonizada é a desumanização das necessidades humanas. Sono, alimentação, descanso e vínculos são tratados como obstáculos à performance. Transformamos a vida em mercadoria e medimos seu valor pela lógica econômica: o que não pode virar produtividade parece não valer nada. É o ser humano voltado contra a própria humanidade.
Essa lógica também nos afasta da realidade de que estamos imersos em uma rede de interdependência. Nossa existência depende de outras pessoas e das condições ecológicas que sustentam a vida. O capitalismo transforma essa dependência mútua em recurso, e a competição passa a parecer uma característica natural da vida.
Quando isso se naturaliza, os princípios do mercado deixam de ser apenas uma forma de organizar a economia e passam a delimitar aquilo que consideramos possível, desejável e real.
O mundo do trabalho é onde essa lógica se materializa com mais clareza. A busca por reduzir custos e ampliar produtividade organiza a produção capitalista, e isso vale tanto para os recursos naturais quanto para os humanos: baratear mão de obra, intensificar o ritmo, cortar tudo o que for considerado custo. Quando isso gera insegurança, perda de direitos e deterioração das condições de trabalho, chamamos de precarização.
O jovem profissional vai encontrar essas contradições assim que entrar no mercado. Quando a formação não inclui ética e responsabilidade social, essas condições parecem uma regra da natureza: algo diante do qual só resta aprender a sobreviver.
Olhar o futuro só pela ótica individual agrava essa impotência: os problemas são coletivos, mas as soluções oferecidas são individuais, e sobra ao indivíduo administrar riscos e minimizar danos sozinho. O horizonte se estreita ainda mais.
Precisamos recuperar a capacidade de desejar aquilo que não pode ser comprado ou convertido em produtividade: vínculos comunitários, solidariedade, cuidado, pertencimento e tempo para viver.
Essa capacidade não depende apenas de grandes movimentos para existir. Existem pequenas rachaduras no cotidiano: na arte, no pensamento, no ensino, no cuidado, na criação de comunidades. São rachaduras por onde sementes começam a brotar.
Cultivar essas rachaduras é urgente, e uma possibilidade para isso é a formação profissional: promover um conceito de trabalho ético, cidadão e comprometido com a responsabilidade social. O futuro precisa ser entendido como um projeto coletivo, em que a forma atual de trabalho não seja a única possível.
Uma formação crítica suscita reflexões como:
Formar para o futuro não deveria significar apenas preparar pessoas para competir, produzir e se adaptar. É preciso também dar instrumentos para imaginar o mundo que ainda pode existir.
Uma formação com responsabilidade social reconhece que sofrimento psíquico não é apenas um problema individual; que pessoas têm valor além da utilidade; que produtividade não é a única régua da vida; que autossuficiência não é virtude; que sucesso não precisa ser acúmulo de riqueza.
Talvez, a pergunta mais importante seja a mais simples e essencial: Qual é a vida que vale a pena ser vivida?
Francielli Anjos é psicóloga clínica e social. Escreve sobre psicologia, relações humanas, sociedade e subjetividade.