Cada pessoa enxerga o mundo a partir da própria história

Cada um de nós tem uma experiência no mundo. Podemos chamar esse fenômeno de “meu mundo”: a maneira particular como a realidade se apresenta para nós e é percebida, interpretada e sentida a partir das condições que temos.

Aquilo que vivemos não é recebido de maneira neutra. Nossa história de vida, nossas crenças, expectativas, afetos, condições concretas e até o estado em que estamos naquele momento participam da maneira como experimentamos o que acontece. Por isso, duas pessoas podem passar pela mesma situação e ter vivências bastante diferentes.

A todo momento, estamos percebendo o mundo a partir de um campo afetivo. Temos desejos, expectativas, crenças, cobranças, ideias sobre o que é certo ou errado, sonhos, opiniões, emoções e sentimentos. Tudo isso participa da maneira como damos significado àquilo que vivemos.

Quando vou ao encontro do outro, portanto, estou encontrando também outro mundo. E esse mundo pode ser bastante diferente do meu. Nossas experiências são atravessadas por muitos fatores: cultura, idade, gênero, condição socioeconômica, raça, religião, crenças, sexualidade, acesso a bens materiais e simbólicos e até a qualidade do afeto e do suporte que recebemos ao longo da vida. Poderíamos continuar essa lista por muito tempo.

Compreender isso é especialmente importante para quem está em formação ou atua em uma profissão que envolve relações com outras pessoas. Aproximar-se de alguém é entrar em contato com uma experiência de mundo que não é a nossa. Mas esse encontro não acontece em uma única direção: enquanto tento compreender o outro, também sou afetado por aquilo que encontro.

Em uma situação prática, como um estágio ou um trabalho em sala de aula, por exemplo, eu ofereço aquilo que tenho em mim, enquanto o aprendizado acontece a partir das condições que o outro tem naquele momento. Posso preparar um conteúdo bem elaborado e encontrar um aluno que não domina o vocabulário necessário para compreendê-lo. Posso oferecer atenção e interesse e encontrar um aluno que não sabe como se abrir para um professor. Um aluno pode demonstrar interesse por determinado tema e eu talvez não saiba indicar referências sobre o assunto.

Isso não significa necessariamente que alguém esteja fazendo algo errado. Significa que o encontro acontece entre pessoas que chegam ali com histórias, conhecimentos, expectativas e possibilidades diferentes.

E nós também não chegamos neutros.

Quando entro em uma sala de aula de ensino fundamental, por exemplo, encontro não apenas os alunos que estão diante de mim, mas também algo daquilo que vivi quando era criança. Posso me lembrar de como me sentia na escola, de como era aprender, do convívio social, das minhas expectativas e, principalmente, dos sentimentos que aquela experiência despertava em mim.

Minha história também participa da maneira como percebo aquela situação.

Isso pode aparecer de muitas formas. Um professor que teve uma educação autoritária, por exemplo, pode ter aprendido a associar autoridade à maneira correta de ensinar e acabar reproduzindo parte disso em sua relação com os alunos. Outro professor, com uma formação semelhante, pode ter construído uma concepção muito diferente sobre educação e autoridade.

Nossas experiências não determinam completamente quem somos ou como agimos, mas participam da maneira como construímos nossas relações com o mundo e com as outras pessoas.

Por isso, olhar para as próprias vivências e afetos pode ser importante principalmente diante daquilo que nos desafia: aprender algo novo, criar um projeto, perseguir uma carreira ou entrar em uma relação com alguém que pensa e vive de maneira diferente da nossa.

Nossa maneira de pensar e sentir não precisa ser tomada como medida para compreender a realidade. Aquilo que para nós parece óbvio pode não ser para outra pessoa. O que consideramos simples pode carregar, para ela, uma história que desconhecemos. Uma reação que não conseguimos compreender imediatamente pode fazer sentido quando conhecemos um pouco mais do mundo daquela pessoa.

Isso não significa concordar com tudo o que o outro pensa ou faz. Significa reconhecer que existe uma história por trás da maneira particular como cada pessoa experimenta o mundo, assim como existe uma história por trás da nossa.

Talvez olhar para a própria experiência seja também uma forma de abrir espaço para o outro. Quando reconheço que aquilo que penso, sinto e desejo foi construído ao longo da minha história, posso deixar de tomar minha própria experiência como medida para a experiência alheia.

O encontro não exige que duas pessoas experimentem o mundo da mesma maneira. Talvez ele se torne possível justamente quando conseguimos reconhecer essa diferença sem precisar transformá-la imediatamente em erro.



Francielli Anjos é psicóloga clínica e social. Escreve sobre psicologia, relações humanas, sociedade e subjetividade.